Tratar a insuficiência da válvula tricúspide

As vantagens de uma prótese à medida do doente

Duarte Cacela e Rúben Ramos, cardiologistas CUF, explicam as vantagens de utilizar próteses costumizadas no tratamento da insuficiência cardíaca tricúspide.

A válvula tricúspide é uma das quatro válvulas do nosso coração. Na verdade, é a maior deste órgão. A sua função passa por “controlar o fluxo entre a aurícula direita e o ventrículo direito, que são as câmaras cardíacas do lado direito do coração. Como qualquer válvula num sistema mecânico, faz com que o sangue se mova numa só direção”, explica-nos Rúben Baptista Ramos, cardiologista CUF. Contudo, há situações em que esta válvula não funciona bem, afetando a circulação sanguínea. É a chamada insuficiência tricúspide, que pode ter vários graus de gravidade. Duarte Nuno Cacela e Rúben Baptista Ramos, ambos especialistas CUF em Cardiologia e Cardiologia de Intervenção, explicam como é tratado este problema e quais as vantagens de produzir válvulas que têm em consideração a anatomia exata do coração de cada doente.



Insuficiência valvular tricúspide: é um problema comum?

A insuficiência tricúspide é bastante frequente na população geral. Nos seus estádios mais ligeiros, pode atingir 85% da população”, afirma Rúben Baptista Ramos. Contudo, neste grau é considerada benigna. Por outro lado, “quando avança para estádios mais graves - moderada ou grave -, que podem ter alguma repercussão clínica, pode atingir 5% no sexo feminino nas pessoas com mais de 70 anos ou 1,5% nos homens com mais de 70 anos”, explica.

 

Sintomas a que devemos estar atentos

Nas fases mais iniciais, normalmente, a insuficiência tricúspide não dá sintomas, sendo apenas diagnosticada quando a pessoa faz uma avaliação por outro motivo de saúde, com exames como ecocardiogramas ou eletrocardiogramas, explica Rúben Baptista Ramos.

Já em estádios moderados ou graves, podem surgir sintomas associados ao aumento ou congestionamento do fluxo sanguíneo do lado direito, que, segundo os especialistas, incluem:

  • Edema nas pernas
  • Cansaço
  • Falta de ar
  • Dificuldade em respirar
  • Falta de apetite
  • Emagrecimento
  • Aumento do volume abdominal
  • Alterações de trânsito intestinal, como vómitos

 

Em que casos tem de ser substituída?

Nas situações em que é diagnosticada uma insuficiência cardíaca tricúspide é importante procurar solucioná-la. “A terapêutica mais comum são os fármacos, nomeadamente os diuréticos, que expulsam todo o excesso de líquido que se vai amontoando no abdómen, intestinos e membros inferiores. Contudo, os fármacos têm um teto terapêutico e de tolerabilidade a partir do qual os efeitos secundários poderão ultrapassar os benefícios. É aí que surge a intervenção cirúrgica ou por cateterismo. Segundo as explicações de Rúben Baptista Ramos, “a intervenção da substituição da válvula tricúspide percutânea é feita de maneira minimamente invasiva. São feitas pequenas incisões na perna do doente, por onde são introduzidos cateteres (tubos de plástico ocos) através da veia femoral, que permitem inserir a válvula dentro dessas estruturas sem ter que abrir o coração do doente. Dependendo dos casos, este procedimento é feito com anestesia geral ou apenas com anestesia local”.

Além disso, a cirurgia percutânea tem outras vantagens:

  • Tempo de internamento mais curto
  • Recuperação mais rápida
  • Pode ser realizada em doentes de alto risco ou que de outra forma seriam considerados de risco proibitivo para cirurgia

 

Por que motivos esta válvula cardíaca é menos intervencionada?

Válvula esquecida. Segundo Duarte Nuno Cacela, é assim que a válvula cardíaca tricúspide é muitas vezes apelidada nos meios médicos. Há vários motivos que explicam por que é menos intervencionada comparativamente a outras válvulas do nosso coração. Em primeiro lugar, “na maior parte das vezes, é uma válvula que não dá sinais por si só e sabemos que está disfuncional apenas quando outras válvulas, como a aórtica e a mitral (que manifestam os sintomas de forma mais precoce e exuberante), têm problemas concomitantes. Por outro lado, a válvula tricúspide costuma dar sinais de forma mais tardia e menos marcante. Portanto, acaba por se dar mais atenção às outras duas válvulas”, explica Rúben Baptista Ramos. Duarte Nuno Cacela, concorda e refere ainda que, para a válvula tricúspide, “não existe toda a tecnologia que permite tratar as válvulas do lado esquerdo, a aórtica e a mitral”. A combinação destes fatores acaba por levar a que a válvula tricúspide ou não seja intervencionada ou seja intervencionada mais tarde.

 

Uma prótese de válvula à medida do coração do doente

Há um avanço recente no tratamento da insuficiência cardíaca tricúspide, que envolve o uso de próteses feitas à medida do coração do doente, isto é, costumizadas, o que traz várias vantagens. “A estratégia convencional da intervenção valvular consistia numa cirurgia de peito aberto, em que se abre o coração e se cose a válvula. Numa intervenção percutânea, isto já não é necessário. É uma intervenção menos invasiva, feita com buraquinhos muito pequeninos, e, como as válvulas normalmente não são costumizadas - têm tamanhos standards, pequeno, médio e grande -, o tamanho pode não ser exatamente o mais adequado para aquele coração. Por outro lado, as válvulas costumizadas vêm ultrapassar essa dificuldade”, afirma Rúben Baptista Ramos. E como é feito o estudo anatómico que permite ter uma válvula feita à medida do doente? Duarte Nuno Cacela explica: “O estudo para se produzir uma válvula à exata medida do nosso coração é feito após um extenso estudo por tomografia axial computadorizada, que vai medindo todas as dimensões em três planos - da aurícula direita, do ventrículo direito e da emergência das cavas. É um processo que demora, na Alemanha, cerca de oito semanas. Se uma destas próteses não for utilizada para aquele paciente específico, não é aproveitada para outro paciente”.

Publicado a 07/01/2022