O impacto do prolapso pélvico nas mulheres e como tratá-lo
O prolapso pélvico pode comprometer a autoestima e a qualidade de vida. Mas existem abordagens eficazes, que devolvem bem-estar e confiança a muitas mulheres.
"Eu corro há cinco anos e há dois anos comecei a sentir que, na corrida, perdia um pouco de urina, e não me sentia bem com aquela situação. Sentia-me desconfortável, sentia que tinha de parar muitas vezes para urinar, porque sentia um peso no fundo da barriga, parecia que tinha sempre a bexiga cheia". Assim começa a história de Rosa Ferreira, uma entre muitas mulheres que lidam com prolapso pélvico. Esta condição, que afeta uma em cada três mulheres, pode limitar profundamente a vida quotidiana, pois, aliado ao desconforto físico, existe também um peso emocional. Miguel Brito, ginecologista, sublinha que a condição não se limita a mulheres mais velhas: "Ainda recentemente operámos uma jovem de 32 anos, que tinha um prolapso num grau muito avançado.” Fique a conhecer o testemunho de Rosa Ferreira, assim como a saber mais sobre o tratamento do prolapso pélvico.
O que é o prolapso pélvico?
“O prolapso pélvico é uma doença benigna que raramente é ameaçadora da vida e que tem uma incidência muito considerável, atingindo cerca de 30 a 40 % de todas as mulheres. Consiste na descida dos órgãos pélvicos através da vagina", explica Miguel Brito. Estes órgãos - como a bexiga, útero, uretra e até o intestino - descem devido ao enfraquecimento das estruturas que suportam o pavimento pélvico. “E esta descida pode ser apenas de um órgão ou de todos eles em conjunto", afirma o especialista, que acrescenta que fatores como o parto vaginal, a idade avançada, a obesidade e a genética desempenham um papel crucial no desenvolvimento desta condição. "Isto acontece porque deixa de existir uma verdadeira estrutura que os sustenta e, por isso, eles acabam por descer, como se se tratasse de uma ponte que quebra a meio", descreve o ginecologista.
Apesar de atingir até 40 % das mulheres, apenas cerca de 15 % apresentam sintomas. Para estas mulheres, no entanto, o impacto pode ser devastador, limitando a realização de atividades diárias e até influenciando a sua autoestima.
Tipos de prolapso pélvico e sintomas
Nem todas as mulheres apresentam sintomas, mas, quando surgem, podem ser incapacitantes. "Podemos estar a falar de incontinência urinária, urgência miccional, uma sensação de peso pélvico, uma sensação de corpo estranho na vagina, obstipação, dor a defecar, dores nas relações sexuais, muitas vezes incapacitantes”, explica o médico. E Rosa Ferreira recorda-se bem desses momentos: "Senti-me mais inibida, não me sentia confortável com aquela situação, não era qualidade de vida.”
Existem diferentes formas de prolapso, dependendo do órgão afetado:
- Cistocelo: descida da bexiga;
- Histerocelo: descida do útero;
- Retocelo: descida do reto;
- Prolapso da cúpula vaginal: afeta o topo da vagina após uma histerectomia.
A maioria das mulheres não apresenta sintomas iniciais. Porém, quando estes surgem, podem incluir:
- Sensação de "peso" ou "bola" na região vaginal;
- Incontinência urinária ou dificuldade em urinar;
- Obstipação e sensação de obstrução ao evacuar;
- Dor ou desconforto durante as relações sexuais;
- Sensação constante de bexiga cheia.
O impacto do prolapso pélvico na qualidade de vida
O impacto dos sintomas derivados do prolapso pélvico vai muito além do físico. "Quando é sintomática, obviamente tem um impacto na qualidade de vida, porque a mulher deixa de poder fazer a sua vida quotidiana, fica limitada, quer a fazer exercício físico, quer na sua atividade sexual, quer até em pequenas tarefas domésticas e coisas simples, como subir escadas, dar uma caminhada com as amigas”, partilha o especialista.
Este impacto foi evidente no caso de Rosa, que viu as suas atividades mais simples interrompidas. "Eu fui a um médico e contei-lhe a minha situação e ele disse-me 'Mas você já não tem idade para correr.’" Quando depois foi encaminhada para o médico Miguel Brito, "ia com lágrimas nos olhos e ele disse-me que claro que ia correr e havia maneira de continuar a minha vida."
Diagnóstico e primeiros passos: uma abordagem individualizada
O diagnóstico é geralmente feito durante a observação ginecológica. Em casos mais complexos, podem ser realizados exames complementares, como ecografias ou estudos urodinâmicos. “Cada mulher é única e o tratamento deve refletir isso", afirma Miguel Brito. A abordagem inicial pode não requerer cirurgia. Em casos menos avançados, a fisioterapia do pavimento pélvico é uma solução eficaz. "Consiste no fortalecimento dos músculos do pavimento pélvico. Com isto, muitas vezes, conseguimos controlar e até melhorar alguns sintomas." Outra alternativa são os pessários, dispositivos de silicone que sustentam os órgãos prolapsados. "É uma boa opção para mulheres mais idosas ou com comorbidades que impeçam a cirurgia e também naquelas que não desejem uma correção cirúrgica," explica o médico.

Em certos casos, habitualmente menos avançados, há tratamentos não invasivos, como:
- Fisioterapia: Exercícios que fortalecem os músculos do pavimento pélvico;
- Pessários: Dispositivos de silicone que sustentam os órgãos prolapsados e aliviam os sintomas, indicados em mulheres que não podem ou não querem ser submetidas a cirurgia.
Tratamento cirúrgico: técnicas avançadas
Nos casos em que os tratamentos conservadores não são suficientes, a cirurgia pode ser a melhor solução. "O tratamento cirúrgico divide-se em duas abordagens principais: a via vaginal e a via laparoscópica abdominal. Cada técnica tem indicações específicas", detalha o especialista.
Cirurgia vaginal
"Na cirurgia vaginal atual, utilizamos os próprios tecidos da mulher para corrigir o prolapso, sem recurso a próteses de sustentação. É uma técnica mais conservadora, que ainda tem indicação em algumas situações.
Cirurgia laparoscópica: uma solução definitiva
"A laparoscopia é, sem dúvida, a abordagem preferencial e aquela que deve ser sempre oferecida preferencialmente no tratamento do prolapso uterino, isto porque utiliza uma rede de sustentação que só deve ser colocada por esta via. Essa rede vai segurar, vai puxar os órgãos que desceram e vai fixá-los, sustentá-los a um ligamento na coluna vertebral, no promontório sagrado, e daí o nome da técnica, colposacropexia ou promontofixação, e, desta forma, torná-la uma cirurgia mais definitiva com melhores resultados. É uma cirurgia minimamente invasiva e que acrescenta aqui muitas vantagens, nomeadamente nas taxas de complicação, na recuperação, nos dias de internamento, mas tem também ainda outra grande vantagem, é que nos permite magnificar a imagem e com isso nós conseguimos corrigir o prolapso de uma forma muito mais minuciosa tratando não só os sintomas, mas conseguindo também uma melhor correção anatómica da vagina", explica o médico.
Uma história de superação
A cirurgia de Rosa Ferreira, em março de 2023, envolveu a correção da bexiga, do intestino e a remoção do útero, estava muito descido. Rosa recuperou totalmente e o resultado foi transformador: "Agora sim, tenho qualidade na vida. A recuperação foi impecável, não tive dores nenhumas. Estive dois dias internada e correu às mil maravilhas. Saí pelo meu próprio pé. Levei medicação, mas nunca precisei dela”.
A cirurgia não só corrige os sintomas, como também devolve a autoestima e a confiança: "Não só porque é uma cirurgia curativa, em que tratamos os sintomas, mas é também uma cirurgia em que conseguimos uma correção anatómica, o que também é uma mais-valia visível na recuperação da autoestima destas mulheres. A recuperação desta cirurgia é bastante rápida. O tempo de internamento são em média 24 horas e depois a mulher pode recomeçar a sua vida normal logo a partir daí”, refere o especialista. As palavras de Rosa comprovam isso mesmo: “Depois da cirurgia, a recuperação foram três meses em que não pude correr. O primeiro mês, nem correr nem caminhar. A partir dos 30 dias podia começar a caminhar um quilómetro, dois quilómetros... E a partir dos três meses, já fazia a minha corrida normal. Eu hoje sinto-me ainda mais jovem, sinto qualidade de vida. Hoje sou uma mulher feliz!”
“A minha recomendação principal é que, nos primeiros dois, três meses, a mulher não faça grandes esforços até estabilizar a prótese. Mas, a partir daí, pode voltar à sua vida e fazer os exercícios que quiser, fazer os esforços que quiser - está na plenitude das suas capacidades", reforça o ginecologista.
Prevenção: o papel dos bons hábitos
"Para prevenir o prolapso dos órgãos pélvicos, temos que corrigir os fatores de risco, os fatores desencadeantes", explica Miguel Brito, que acrescenta: “Os fatores de risco do prolapso pélvico são conhecidos: o parto vaginal, a idade avançada, a obesidade e também o risco genético”. Entre as medidas preventivas incluem-se:
- Manter um peso saudável: evita a sobrecarga do pavimento pélvico;
- Fortalecer os músculos pélvicos: praticar exercícios como os de Kegel;
- Evitar esforços físicos intensos: especialmente após partos ou cirurgias;
- Controlar condições crónicas: como a tosse persistente ou obstipação.
O prolapso pélvico é uma condição tratável que, quando diagnosticada e abordada corretamente, permite às mulheres recuperar a sua qualidade de vida. Se sente sintomas ou tem dúvidas, procure um médico especialista.